UN ARTÍCULO A SEIS MANOS SOBRE LAS AVES Y EL MÁS ALLÁ

 

UM PÁSSARO NA PASSAGEM PARA A OUTRA VIDA – A HOMENAGEM DE DANIEL A GERMÁN

Reflexões sobre as aves e a morte em El camino

 

Daniel Romão, Irina Francisco, Joana Fernandes, Raquel Silva, Raquel Violante e Rita Delgado (Agrupamento de Escolas Cidade do Entroncamento – Portugal).[1]

 

 

            No âmbito do projeto “Literatura, naturaleza e historia en la narrativa de Delibes”, que privilegiou, junto dos nossos parceiros espanhóis, o estudo das aves numa perspetiva biológica, considerámos pertinente indagar sobre o mesmo objeto de estudo, mas do ponto de vista simbólico, a partir da análise do episódio relativo ao velório de Germán.

As aves, no seu voo, simbolizam para muitos a relação entre o Céu e a Terra. A própria palavra é um sinónimo de “mensagem do céu” (CHEVALIER, 1982: 99). Para os mais variados povos, a figura das aves representa a leveza e a libertação do peso terrestre, sendo também a figura da alma que deixa o corpo. Além disso, simboliza os anjos, os estados superiores do Ser, podendo ainda ser visto como a amizade dos deuses para com os homens. O ninho onde estas se refugiam diariamente, no cimo das árvores, pode ser interpretado como uma representação, na Terra, do Paraíso. A ave espelha a alma, o destino, tendo um papel mediador entre o Céu e a Terra.

Vários são os exemplos desta referência às aves na literatura espanhola, ao longo dos tempos. Vejamos três desses exemplos. No “Romance del Prisionero”, um texto lírico na primeira pessoa sobre um prisioneiro, o sujeito poético aborda a amargura da falta de liberdade. O poema relata a vida de um prisioneiro que vive numa prisão escura e triste, onde não se consegue ter a perceção da passagem do dia para a noite. Este alude ao mês de maio, o mês onde faz calor, onde os campos estão em flor, onde os namorados se apaixonam, expressando a sua tristeza, porque não consegue ver, nem viver estes acontecimentos. No entanto, mostra um afeto especial por um pássaro que, todas as madrugadas, cantava para ele, dando-lhe uma visão da vida e da liberdade. Porém, o pássaro um dia é morto, o que faz com que o prisioneiro perca a noção do tempo e do mundo exterior e, com ela, a esperança por que tanto ansiava.

Uns séculos depois, encontramos na poesia de Quevedo, a Fénix. Esta ave mítica renasce das suas próprias cinzas, após se consumir e apagar nas trevas da noite. Simboliza o sol, a vida, a ressurreição e a imortalidade. A Fénix é, pois, o símbolo da ressurreição de Cristo, sendo o triunfo da vida sobre a morte, e a sua presença é muitas vezes chamada às mais belas páginas de literatura.

Na época contemporânea, Juan José Millás, num conto intitulado “El olor de la gasolina” faz referência à ave como uma representação terrestre de uma figura que já terá partido e deixado a Terra. Este conto aborda então a história de um rapaz que sempre teve o sonho de ir à Serra de Madrid. Certo dia, o seu pai leva-o lá e, ao entardecer, quando decidem regressar, param pelo caminho com a intenção de admirar a hora mágica, isto é, o pôr do sol. Nisto, o pai avista um pássaro preto e exclama que um dia, após a sua partida, o seu filho voltaria àquele mesmo local e que, se um pássaro preto viesse ao seu encontro, esse pássaro seria ele.

Na obra que aqui temos em apreço, El camino, de Miguel Delibes, a presença das aves é frequente, visto que Germán, el Tiñoso, era um amante dos pássaros, paixão que lhe havia incutido o seu pai, Andrés. O homem que de perfil não se vê, estava habituado às experiências de acasalamento mais inesperadas entre os diferentes pássaros. Se as descrições em redor dos pássaros são recorrentes, importa aqui relembrar o momento da morte de Germán, el Tiñoso, para encontrar um dos episódios mais emocionantes da obra.

Após o acidente no rio, que conduzira à morte de Germán, Daniel andava triste e sentia-se sozinho. No meio do percurso até ao local onde estava o corpo do amigo, Daniel viu um tordo preto que lhe chamou a atenção, dado que lhe veio à memoria que o seu amigo gostava muito de pássaros. Então tirou do bolso uma fisga e, com uma pedra, matou o pássaro e levou-o consigo no bolso. Ao chegar ao local onde estava el Tiñoso, viu o seu amigo e a coroa de flores que dizia: “Tiñoso, os teus amigos Mochuelo e Moñigo nunca te esquecerão”. De seguida, aproximou-se e depositou o pássaro junto ao corpo do amigo, pois achava que ele lhe iria agradecer este detalhe desde do outro mundo. Logo de seguida, Tomás, o irmão de Germán, reparou no pássaro morto e ficou surpreendido; começou, então, a perguntar como é que aquilo fora ali parar. Daniel não teve coragem de admitir o que tinha feito. Todos ficaram muito agitados e começaram a perguntar se alguém sabia como é que aquilo aparecera ali, até que Andrés entrou, começou a chorar silenciosamente e disse que, como El Tiñoso gostava muito de pássaros, estes tinham vindo morrer com ele. Esta afirmação gerou mais alvoroço e as pessoas começaram a acreditar que era um milagre, o que fez com que Daniel nunca dissesse a verdade, com medo da ira das pessoas. No meio desta confusão, várias mulheres saíram à procura de Don José e outras foram chamar os seus familiares, para que pudessem testemunhar o acontecimento milagroso. O padre, ao chegar, perguntou se alguém tinha visto alguma coisa ou posto o pássaro ali. Nesse instante, olhou para Daniel e este saiu a correr. Todos responderam que ninguém tinha feito uma coisa destas e insistiram em saber se era mesmo um milagre ou não. Don José disse a todos que não podia dar uma resposta a um acontecimento como este e que teria de falar com um superior. Depois disto saiu, esbarrou com Daniel, e deu a entender que sabia que tinha sido ele.

Foi importante naquele momento as pessoas acreditarem no milagre, para não sofrerem tanto e terem algo onde se agarrarem. O falecimento de alguém próximo cria um vazio. O mistério do que vem após a morte provoca angústia. As pessoas procuram na religião as respostas para encontrarem o consolo de que tanto precisam para curar a sua dor e tornar a separação menos difícil; procuram acreditar que os falecidos foram para um lugar melhor e que estarão sempre a olhar pelos seus.

É na crença da existência de uma vida para além da morte que o pensamento humanístico tem vindo a encontrar consolo para a nossa finitude. Os mitos, a arte, as religiões, o pensamento, as experiências místicas têm ajudado o ser humano a compreender o mistério que envolve a sua condição humana: a de que um dia terá de morrer. Que foram pensando os filósofos a esse respeito ao longo dos tempos? Vejamos nos parágrafos que se seguem alguns contributos nesta área.

Na perspetiva de Sócrates e Platão, grandes pensadores da Grécia Antiga, a morte era vista como estando associada à alma, que era entendida como imortal. A possibilidade desta alma ascender ao verdadeiro conhecimento implicaria dissociar-se da matéria, do corpo e, portanto, isso ocorreria com a morte. Para Kierkegaard (século XIX), o Homem é um ser livre, e essa liberdade é correspondente à angústia. A vida é a constatação dessa mesma angústia. A morte surge neste contexto como fonte de esperança: a esperança do fim da angústia existencial. Nietzsche, seu contemporâneo, tem uma perspetiva sobre a morte como um fim após o qual mais nada há. É necessária a sua aceitação e é também necessário fazer da vida o projeto a ser desenvolvido por cada um de nós; transportar o “além” para o “aquém”. Para Sartre, existencialista do século XX, a morte surge como um fenómeno individual único, vivido por cada um de forma absolutamente solitária. Ela é o regresso ao nada que acontece com o nosso nascimento e que vai sendo rebatido com a construção do eu ao longo da vida. A morte, sendo um regresso ao nada inicial é também o ponto final de um caminho que mais não foi do que de autoconstrução. Camus, na mesma época, e na senda do conceito de ”absurdo”, analisa o sentido da vida e faz uma similar abordagem em relação à morte. A vida mais não é do que o absurdo da repetição tão metaforicamente ilustrada pelo mito de Sísifo e da sua relação com o seu rochedo. E há que amar o nosso rochedo para que a vida triunfe sobre o seu estar absurdo. A morte é o ponto final deste absurdo chamado vida.

            Perante o exposto, constatamos que há duas perspetivas diferentes, sobre a morte, bastante claras. Se os clássicos apresentados a concebem como o início de uma vida eterna (tendo em conta a imortalidade da alma), os existencialistas do século XX, por outro lado, concebem-na como a finitude da existência da pessoa.  E que dizer da forma como é concebida em Delibes, mais propriamente neste episódio?

            Na Espanha dos anos 50 do século XX, vivia-se numa sociedade muito religiosa marcada pelo fervor católico. Como tal, acreditava-se que a morte não era um fim, mas o início de uma vida eterna. É interessante verificar que um homem tão atormentado pela ideia de morte (como nos confidenciou a sua filha, na videoconferência de 3 maio) possa ter tratado com um olhar leve e delicado uma questão tão importante que, seguramente, lhe trouxe conforto, um singelo conforto, o mesmo que terá chegado aos seus leitores, eventualmente enlutados, destes últimos setenta e dois anos.

           

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

ABBAGNANO, Nicola (1992): História da Filosofia. Lisboa: Editorial Presença, vol. I, X, XII, XIV.

 

Anónimo, “Romance del Prisionero”. Disponível em: https://www.escolares.com.ar/contenidos/literatura/autores/argentinos/70-obras-literarias/3041-romance-del-prisionero- [consultado a 20.05.2022]

 

CAMUS, Albert (1942): O mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo. Lisboa: Livros do Brasil

 

CHÂTELET, François (1983): História da Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, vol. I, V, VI, VIII.

 

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain (1982). Dicionário de Símbolos. Lisboa: Editorial Teorema, pp.99-102, 319.

 

DELIBES, Miguel (2007[1959]). El camino. Barcelona: Ediciones Destino.

 

MILLÁS, Juan José (24.nov., 2001). “El olor de la gasolina”. In El País

Disponível em: https://elpais.com/diario/2001/11/25/madrid/1006691055_850215.html

[consultado a 20.05.2022].



[1] Os alunos (do 11º ACSE e do 11º BLH) foram apoiados pela professora Almerinda Pereira (na parte literária – objeto e enquadramento teórico) e pela professora Cristina Resende (na parte filosófica), na redação deste artigo (no final de maio de 2022). O projeto etwinning em questão é uma parceria com uma escola de Espanha (Piedrahita, Ávila), de França (Lille) e de Portugal (Marinhais, Salvaterra de Magos).

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